A triste sina do futebol feminino no Brasil

A terra batida, linhas mal marcadas com a cal, crianças correndo descalças atrás de uma pelota. Esse cenário é o mais comum quando começamos a falar da maior paixão nacional: o futebol. A criança ainda no deleite de seu berço já tem como praxe o amor pela bola. Mesmo no século XXI muitos vivem com o pensamento de querer que aquele seu filho menino seja um futuro Pelé ou Neymar – se pensarmos no presente. Muitos se têm uma filha mulher se derramam em lágrimas e reclamam do fato de não poderem ter um filho para ensinar os segredos do futebol, mas isso deveria ter sido mudado do imaginário da população, mas não acontece, ainda vemos a cada dia que passa a mulher sofrendo para se inserir no meio futebolístico.

O tal cenário de terra batida descrito ainda é habitado por uma maioria de meninos, mas não é difícil encontrar nos terrões espalhados por esse Brasil afora meninas correndo, driblando e brigando lance a lance com os garotos. É a mágica do futebol.

Infelizmente as mulheres não sofrem preconceitos e dificuldades só na infância ou adolescência. Depois de trilharem caminhos extremamente preconceituosos até chegar no tal “profissionalismo” no esporte se deparam com um cenário deplorável, que nada condiz com uma nação que se intitula a “pátria de chuteiras”.

O mundo do futebol feminino é feito de uma realidade inversamente proporcional ao do masculino. Enquanto os homens disputam campeonatos o ano todo, reclamam de um calendário apertado, as mulheres se deparam com uma escassez imensa de jogos e torneios. A Copa do Brasil feminina foi por muito tempo a única competição nacional, atualmente também existe o Campeonato Brasileiro, competição recente para uma modalidade na qual a seleção já conquistou duas medalhas olímpicas (prata em Atenas 2004 e Pequim 2008) para o país e um vice campeonato mundial (2007).

No final de 2014 a equipe paulista do São José conseguiu um feito inédito. Após derrotar o time do Arsenal, as meninas do São José sagraram-se campeãs mundiais de clubes, competição com a chancela da FIFA, que foi realizada no Japão. Mas o que isso mudou no cenário brasileiro? Nada. Muita gente inclusive desconhece o feito que o futebol feminino realizou.

Campeã mundial pelo São José e titular da seleção brasileira, Bruna Benites reclama do nível do esporte no país e que isso prejudica os investimentos. “O nível do futebol feminino no nosso país é muito baixo, não temos competições de alto nível. Temos no máximo 7 equipes competitivas. Isso não é atrativo para quem quer investir. Ninguém quer assistir um jogo de 10 a 0”, afirma.

Para a atleta o que precisa ser feito para alavancar de vez o futebol feminino no Brasil é que os profissionais que regem a modalidade tenham uma qualificação melhor. “Acredito que precisamos de qualificação para as pessoas que são responsáveis pelo futebol feminino. Na minha opinião não adianta a pessoa apenas amar a modalidade e montar um time, que é o que acontece na maioria dos clubes, principalmente das cidades menores. A pessoa tem que entender de futebol, tem que formar atletas, tem que ensinar”, desabafa Bruna.

Mas para tudo isso acontecer é necessário investimentos dos clubes e da CBF. Um dos legados da Copa de 2014 foram 15 milhões de dólares para serem investidos no futebol feminino brasileiro. Bruna informou que participou recentemente de um evento com a CBF e o Ministério do Esporte, onde ambos afirmaram que vão ajudar a modalidade. “A CBF e o Ministério do Esporte também disseram que vão trabalhar para alavancar o futebol feminino, portanto espero sinceramente que as coisas melhorem, principalmente para as meninas que não tem oportunidade de jogar devido a falta de apoio por parte de seus respectivos estados”, informa.

O retorno das Sereias da Vila

Com certeza a equipe de futebol feminino que mais marcou a modalidade foi o Santos comandado por Marta, Cristiane e companhia. Conhecida como “Sereias da Vila”, o time marcou época e conquistou todas as competições existentes no momento. Mas para priorizar o time masculino, o Santos optou por desmanchar a categoria feminina, deixando muitas atletas órfãs e prejudicando muito o cenário nacional que não era nada animador.

sereias
Espaço dedicado ao time feminino do Santos no Memorial de Conquistas do clube. Foto: Danilo Georgete.

O desmanche do time feminino do Santos aconteceu na gestão do presidente Laor, o mesmo resposável pela permanência de Neymar no Brasil por muito tempo. Mas para os fãs do futebol feminino, o novo mandatário do Santos, Modesto Roma, anunciou semana passada o retorno das “Sereias da Vila”, o atual presidente do clube era o diretor responsável pelo time comandado por Marta. A tendência é que várias atletas que já vestiram a camisa do Santos sejam repatriadas pelo clube.

O comandante do time da Vila Belmiro deverá ser Caio Couto, ex treinador da seleção brasileira feminino sub-20. O presidente Modesto Roma já confirmou o técnico, porém Caio Couto afirma estar com conversas avançadas com o Santos. “Estou conversando com o presidente Modesto Roma. Ainda tem algumas coisas pendentes”.

Do balé para o futebol

Em 2012, a jogadora Thaisinha era o grande nome da seleção brasileira que venceu a Copa Sul-Americana sub 20, realizada em Curitiba. A futura promessa, se tornou realidade e hoje brilha com as cores do Incheon Hyundai Steel Red Angels, da Córeia do Sul.

Mas antes de calçar as chuteiras e desfilar seus talentos pelos gramados do mundo, ela vestiu as sapatilhas para as aulas de balé que frequentou dos dois aos seis anos de idade, quando sua avó materna convenceu seu pai a leva-la para a escolinha de futebol do São Paulo Central. “Ela via que minha grande paixão na verdade era o futebol, eu gostava do balé mas não era a mesma coisa, quando eu chegava e pegava uma bola para jogar na rua com meus primos, eu ali era feliz”, explica Thaisinha.

Thaisinha
Thaisinha em ação pela seleção brasileira contra a Argentina. Foto: Danilo Georgete.

A jogadora informa que no começo o preconceito surgiu por parte dos colegas de escolinha. “Eu sofri um pouco no começo, pois comecei a jogar com meninos na escolinha do São Paulo, então eles falavam entre eles que como uma menina pode jogar futebol com eles, que iam me machucar e coisas e tal, até o meu primeiro treino com eles, depois dali e com o tempo fui criando o meu próprio respeito com eles e mostrando que eu podia jogar sim e até melhor que eles. Que não há diferença nenhum por eu ser menina”, afirma a atacante.

Primeira partidade futebol femino no Brasil

A primeira partida oficial de futebol feminino registrada no Brasil ocorreu na zona norte de São Paulo, em 1921, numa disputa entre as equipes das senhoritas Tremembenses e senhoritas Cantareirenses. O jornal A Gazeta definiu e satirizou a partida como “curiosa”. Após esse episódio, o futebol feminino chegou até a ser exibido como atrações de circos, tamanha era a rejeição da sociedade em relação à modalidade.

Danilo Georgete

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *