7 bombas de Hiroshima

Uma vez o célebre jornalista Nelson Rodrigues disse: “Cada povo tem a sua irremediável catástrofe nacional, algo assim como uma Hiroshima. A nossa catástrofe, a nossa Hiroshima, foi a derrota frente ao Uruguai, em 1950”. Perdoe-me nobre colega, mas estava errado.

Nos perdoe também: Barbosa, Augusto, Juvenal, Bauer, Danilo, Bigode, Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. Aquele jogo contra o Uruguai em 16 de julho de 1950 pode ser chamado de uma dia fatídico, olha a campanha que fizeram, quantas goleadas. Foi um dia atípico para aquela geração repleta de craques que nunca tiveram tal alcunha.

Um ano atrás enquanto me arrumava para assistir um tal passeio alemão já pressentia que a coisa não seria boa. Supersticioso que só, não achei a tal camisa amarela retrô de 1982 que havia usado nas outras cinco partidas. Hoje fico pensando se estivesse com ela o negócio seria diferente, acho que não. Na minha memória, mais do que aquelas sete facadas, vai ficar para sempre cada gargalhada que meu primo dava, assim como meu irmão comemorando entusiasmado o único tento brasileiro, doce ilusão, coitado.

O fato é que por anos, aqueles jogadores que vestiram branco na Copa de 50 foram tratados como vilões, principalmente Barbosa, crucificado por todos, sim por todos, e tão somente pelo fato de ser negro. Como se o Uruguai campeão naquele ano não tivesse tantos negros em seu elenco quanto o Brasil. Mas, aquela seleção ficou com o rótulo de fracassada e de levar para sempre a maior tragédia futebolística do país. Obrigado Felipão e companhia, vocês fizeram um bem ao apagarem do imaginário nacional que 50 foi a maior catástrofe brasileira.

Voltando a frase dita por Nelson Rodrigues, podemos dizer que nossa Hiroshima foi aquele 7 a 1 de um ano atrás, em plena semi-final de Copa do Mundo disputada no Brasil. Os efeitos de tal bomba de desilusão ainda pairam pelo ar brasileiro. O nosso complexo de vira-lata ficou mais em evidência. Nem mais as pelejas jogadas por aqui encantam, e a grama hermana, pasmem, é mais verde.

As vozes caladas por Gigghia em 1950 puderam ver o renascimento de um Brasil que adotou a cor amarela em seu uniforme. As milhões de pessoas que viram de longe ou de perto o Mineirazo, se deparam com uma seleção que amarela contra fracos adversários. Falta craque, amor à camisa.

A derrota de um ano atrás foi o início do sepultamento do futebol brasileiro. Não somos mais o país do futebol. Deixamos de ser a pátria de chuteiras. Já faz é tempo que não dá gosto sentar e ver um jogo da seleção. Mas, assim como cada desilusão amorosa nos faz desacreditar no amor, aquele 7 nada fatídico nos fez desacreditar de vez no escrete canarinho.

Porém, basta um lapso de futebol bem jogado para a chama acender e voltarmos a sentir carinho pela seleção. Mas em tempos de romances cada vez mais raros, é mais fácil encontrar um amor sincero do que nossa seleção voltar a encantar.

A derrota em 50 foi mais sentida, mas não podemos chamar de tragédia, não acabou com o encanto do brasileiro com o futebol. Agora, em um país em que 9 em cada 10 meninos sonham em jogar futebol, o amor, o encanto, os ídolos mudaram. Neymar? Pare, essas crianças querem mesmo é ser como Messi e Cristiano Ronaldo. Acabou o amor próprio pelo futebol nacional. Aquele 7 a 1 foi humilhante, inacreditável, inesquecível. Foi sim a nossa catástrofe nacional multiplicada por 7.

Gol da Alemanha.

Danilo Georgete

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