Feminista e Mc: Carol Bandida

Posso começar esse texto garantindo que, assim como você esperava, ela é, sim, funkeira e feminista. O nome completo é Carolina Lourenço de Oliveira, porém, poucos a conhecem por esse nome. Na verdade, ela prefere mesmo é ser chamada de “Carol Bandida”, mas há quem a chame apenas de Mc Carol.

Sem “papas na língua”, Carol, que tem apenas 22 anos, trabalha como Mc há cinco. Logo no começo da carreira, a cantora saiu no DVD Furacão, que, segundo ela, é o sonho de todo Mc. Com esse tempo de carreira, hoje ela realiza cerca de dez shows por mês. E enriquecer o currículo, recentemente  participou do reality show  Lucky Ladies, realizado por um canal de TV fechado, ao lado da funkeira Tati Quebra Barraco.

Dona dos sucessos como “Meu Namorado é Maior Otário” e “Jorginho me Empresta a 12”, a cantora diz que sua inspiração vem dos amigos, vizinhos e do cotidiano dos moradores da comunidade em que mora. A artista é o tipo de pessoa explosiva, que fala o que quer, e na hora em que bem entender. Sinceridade é com ela mesma.

Há poucos dias, a Mc esteve em Curitiba para fazer uma de suas apresentações e cedeu uma entrevista exclusiva ao Conexão News, que você confere abaixo.

Como a sua carreira começou?

Foi muito louco, muito rápido. Um dia um cara da rua me chamou para cantar numa comunidade. Eu nunca tinha cantado, só que eles sempre ficavam no meio da rua cantando o trecho de uma música deles e aí eu fiz mais um trecho pra debater essa música. Todo mundo gostou e pediu para que eu terminasse de compor a música. Lembro que escrevi uma letra muito grande e o pessoal pediu para que eu tirasse as melhores partes, porque quando o funk é muito comprido ele “sufoca o baile”. Terminei a música e cantei na comunidade. O pessoal gostou muito e foi aí que nasceu a minha primeira música: “Vou Largar de Barriga”.

Você sempre quis ser Mc?

Não. Quando eu era pequena tinha vontade de fazer Direito, ser advogada. Eu sempre gostei de defender os outros, e brigava muito na escola. Tive vontade até de ser juíza. Mas na vida acontecem coisas e essas coisas me levaram a ser Mc.

De onde você tira inspiração para compor suas músicas?

Eu moro numa comunidade que só tem maluco. Então minhas inspirações vêm do cotidiano das pessoas que vivem lá, dos meus vizinhos, das coisas que acontecem comigo. Quando a história é boa, eu pego e adiciono mais alguns ingredientes para tornar a história mais criativa. E pra se tornar um funk ela precisa ter rima… Vou trabalhando nisso.

 

 

 

Então a música “Minha Vizinha é Louca” foi dedicada a uma vizinha sua?

Ah, sim. (risos). Na verdade, algumas coisas da música eu vivi com a minha avó. Aos 14 anos eu fui morar ao lado da casa dela, e ali aconteciam discussões todos os dias. E eu também sempre tive problemas com meus vizinhos, há pouco tempo eu fiz minha festa de aniversário, numa terça-feira, e os meus convidados quebraram o telhado do vizinho (risos). Aí eu tive que pagar né.

O que mudou na sua vida depois que você passou a trabalhar com o funk?

Mudou tudo. Eu mudei, cresci, mas ainda tenho coisas que não saem de mim. Ainda sou muito humilde e às vezes isso atrapalha. Por exemplo, vou tirar foto com o pessoal, aí as pessoas começam a abusar e querem tirar um book, e eu fico ali, parada, e a minha equipe fica revoltada: “pô Carol, a gente tem horário”. Eu preciso aprender a dizer não. Por outro lado, eu mudei em muitas coisas. Hoje eu sou muito mais vaidosa, já consigo me maquiar e me vestir melhor. Outra coisa que mudou, foi que, no começo, eu trabalhava com aqueles celulares “xing ling”. E as meninas falavam “Carol, cê tá louca? Você precisa divulgar as suas coisas”. Foi aí que eu comprei um celular melhor.

Falando em redes sociais. Como é feito seu trabalho na internet?

Eu sempre procuro ficar de olho no facebook, instagram, e-mail etc. Mas também conto com a ajuda da minha assessora. Às vezes ela fica louca comigo, porque eu não tenho paciência pra algumas coisas. Esses dias um cara comentou na minha foto, ele disse que eu deixei de ser humilde. Aí já mandei tomar naquele lugar (risos).

Você tem algumas músicas que falam sobre drogas. Como surgiu a música “Bateu uma Onda Forte?”

Eu sou uma pessoa completamente careta. Não bebo, não fumo, não cheiro. Mas em datas comemorativas, eu acabo bebendo um vinho. Era Natal e tava rolando uma festa na comunidade. Eu estava em casa bebendo e aí ligaram me chamando para o baile, mas eu não quis ir porque já estava bêbada. Mas no fim das contas acabei indo. Peguei o microfone, na hora que eu ia cantar, não vinha nada, eu não lembrava nenhuma música. Eu fiquei um ou dois minutos olhando para cima, pensando no que eu ia cantar. Enquanto isso o baile todo estava parado esperando que eu cantasse. E então eu comecei “caramba, caramba… bateu uma onda forte, to vendo um macaco em cima do poste”. Eu fiquei nisso meia hora e todo mundo adorou. Chegando em casa eu resolvi dar continuidade à música.

Apesar de ter essa vida de shows e bailes funks, você é casada. Como seu marido lida com a sua vida profissional?

Lida muito mal (risos). Ele não gosta. Já tentei levá-lo em alguns shows, mas não deu certo. Amo ele, amo meu trabalho e não vou me desfazer de nenhum dos dois. É aquele ditado,  “os incomodados que se mudem”.

A música “Meu Namorado é Maior Otário” foi feita pra ele?

Na verdade, não. Eu fiz antes de começar algo de verdade com ele. Quando o conheci, era muito nova, eu era amante dele, mas ele sempre sumia. Depois de um tempo de sumiço ele voltou e eu me tornei mulher dele. A música foi feita nesse sumiço dele, mas acabou que, apesar da música não ser para ele, alguns trechos se encaixam bem no jeito dele.

Você se considera feminista?

Completamente. Eu acho que não ser feminista é ser submissa. Eu não vou ser submissa a homem nenhum. Homem meu tem que fazer comida, cuidar da casa, cuidar de mim etc. Dizem que mulher é sexo frágil. Mano, mulher passa pela dor do parto. O homem com uma dorzinha de cabeça já está sofrendo.

Você pensou que a música “Não foi Cabral” poderia ser usada como método de ensino nas escolas?

Não mesmo. Assim que eu gravei a música e postamos ela na internet, tudo foi muito rápido. Logo que eu comecei a viajar e vi a galera cantando a música, eu pensei: “caraca, esse é o poder da internet”.

Você já passou por alguma situação de racismo ou “gordofobia”?

Eu nunca sofri preconceito por ser gorda, mesmo sendo gordinha desde criança. Mas por ser negra, sim. Às vezes é entrar numa loja que você nota os olhares com caras feias em sua direção.

Você acha que suas músicas podem empoderar as mulheres de alguma maneira?

Ah, pode até ser. Mas é que eu não faço muita música falando de feminismo. Eu vou começar a fazer agora, e espero poder ajudar no processo de empoderamento dessas mulheres.

Tayná Soares

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