O que ele faz não é demonstração de amor, é um relacionamento abusivo

Era natal de 2014, viajei para o interior do Paraná, pois prometi aos meus pais que passaria essa data com a família, mas o ano novo seria comemorado ao lado do meu namorado e da família dele, em Curitiba. Retornaria à capital apenas no dia 30 de dezembro, mas ainda era dia 26 e lá estava eu, procurando por ele.

Tive mais uma das comuns brigas que tinha com ele. Ele bebia, achava o máximo estar longe de mim, e então terminava o namoro por mensagem. Nunca havia entendido o porquê de ele fazer isso comigo. E assim, na noite do dia 25 ele mandou uma mensagem falando que “não dava mais” e terminou. Arrumei minhas coisas, deixei minha família e fui atrás dele. Ele não atendia o celular, na verdade, pouco se importava com o fato de eu passar o fim de ano sozinha. Tempos depois descobri que ele estava numa festa com os amigos, bebendo, se divertindo, e sequer lembrando que tinha uma namorada.

Quando o encontrei, conversamos. Em momento algum ele pediu desculpas, não se sentia culpado. “Voltamos”. Passamos o ano novo juntos e uma semana depois brigamos novamente. Na verdade, os quase nove meses de namoro foram assim. Brigamos no dia do meu aniversário, em festas, em casa, na rua… Em qualquer lugar. E eu estava lá, sempre ao lado dele, pedindo para que não me abandonasse.

Relacionamentos abusivos são assim: carregados de pressão psicológica e egoísmo. Nunca pude entender como eu, feminista, me deixei viver um relacionamento assim. Mas, aos poucos, fui percebendo que já estive em diversas situações parecidas. Você sabe que ele mente que ele trai. Ele acha que você não é boa o suficiente para alguma coisa, te chama de louca, faz gaslighting com você e, mesmo assim, você permanece nesse relacionamento.

Tantas pessoas tentaram me alertar sobre meu ex-namorado, até mesmo os amigos dele que me diziam “se eu fosse sua amiga antes, te diria para não namorar com ele”. E eu ria, pois achava que comigo ele poderia mudar. E não mudou. Tentei, de diversas maneiras, confrontá-lo, falar o que estava sentindo/pensando, mas ele sempre me dizia que não era bem assim, que era mentira, que ele jamais fez algo pra me magoar e que eu precisava ter calma com ele. Eu acreditava.

Depois de muito tempo nessa situação, uma amiga me puxou pelo braço, e me fez ouvir por mais de uma hora que eu estava num relacionamento abusivo. Mostrou-me o que eu estava vivendo, apontou o que ele fazia comigo, e brigou muito comigo, mas muito mesmo. Nesse dia, meu ex-namorado mandou uma mensagem dizendo que “precisava de um tempo sozinho”. Essa foi a deixa perfeita para que eu criasse coragem e terminasse com aquilo que fazia tanto mal para mim.

E depois desse furacão, minha amiga que havia brigado tanto comigo, me deu todo apoio que eu precisei. E é disso que mulheres precisam quando passam por algum tipo de violência, porque sim, relacionamento abusivo é um tipo de violência.

Todos os dias mulheres são violentadas, assassinadas. Parte dessas violências acontecem em relacionamentos abusivos. E a culpa disso tudo nunca é da vítima. Só quem passa por algo assim sabe o quão difícil é perceber o que você está vivendo. Emais complicado ainda é sair dessa situação.

Ao se deparar com algo assim, não se cale. Ficar quieto torna você conivente com o opressor. É preciso (mesmo que a vítima não te ouça na primeira, nem na vigésima vez) que você mostre que ela não está sozinha. Aponte o que está acontecendo e ofereça seu apoio a ela.

Mulher, sua felicidade não depende de um homem. Você não precisa aceitar quando ele diz para você não sair; ou que sua roupa está curta; que só está com ciúmes; diz que a traição foi um momento de fragilidade… Sua felicidade depende de você.

Olhe-se no espelho e veja a mulher maravilhosa que você é. Ao contrário do que o opressor diz, ninguém aqui é louca. Somos mulheres maravilhosas e temos plena consciência do que fazemos, falamos, pensamos e sentimos. Sororidade, amigas!

Tayná Soares

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