Do céu ao inferno

O motivo principal da derrota de Junior Cigano para o holandês AlistairOvereem poderia até ter sido a sua arrogância. Desde o momento em que o embate foi anunciado, o brasileiro vinha dizendo que Overeem era um oponente fácil, não oferecia nenhum desafio, que seria uma vitória sem importância para sua carreira. Mas diante da apatia e incapacidade técnica e tática que vem assolado o ex-campeão dos pesados, sua arrogância chega a passar despercebida. O lutador veloz, ágil, agressivo, confiante e com excelente boxe deu vez para um lutador assustado, sem confiança, modorrento, e com pouquíssimos recursos táticos. Cigano já vinha decaindo desde sua primeira derrota para Cain Velasquez, uma surra homérica que se repetiu na nega entre eles. Mas neste fim de semana, a sua postura passou de todos os limites do aceitável.

Em três anos, Cigano passou de imbatível para medíocre. Foi nocauteado pelo lutador que talvez tenha o jogo que mais encaixe com o seu em apenas dois rounds, sem se atrever a ser agressivo, sua principal arma e principal ponto fraco de Overeem. O holandês passou dois rounds cercando o brasileiro e soltando poucos golpes, mas sendo objetivo e preciso, com muitos chutes no abdômen e alguns socos que causaram danos na face do brasileiro. Já Cigano ficou plantado no meio do round ao invés de pressionar o oponente contra a grade, aceitando o jogo imposto por este. Além da arrogância, a falta de preparo e decadência técnica e física dele mostram os rumos que o MMA brasileiro tem tomado, com destaque especial para a academia Team Nogueira, dos irmãos Nogueira (Minotauro e Minotouro), que se preocupa mais em achar desculpas para as derrotas de seus lutadores do que aceitar a sua decadência e buscar evoluir.Mudança de postura, passando pela aceitação, e de paradigmas técnicos e táticos são necessárias para voltarmos a ter a maioria dos campeões do maior evento do mundo.

Exceção a regra
Se o MMA brasileiro como todo vai mal, a academia Kings MMA, liderada por Rafael Cordeiro, ex-mestreda Chute Boxe em seus tempos áureos, foge da regra. Hoje a academia possui os dois únicos brasileiros donos de cinturão no UFC. Mas acima disso vem o mérito da equipe na evolução desses dois lutadores. Fabrício Werdum, nos pesados, e Rafael dos Anjos, nos leves, não passavam de lutadores comuns, muito bons de chão, mas com problemas nas outras áreas, tanto de transição quanto na trocação. Não passavam de escadas nas respectivas categorias. Em pouco tempo, Rafael Cordeiro transformou ambos em máquinas de lutar. Rapidamente deixaram de serem lutadores comuns e se tornaram campeões. E o destaque da vez vai para Rafael dos Anjos, que neste fim de semana derrotou Donald Cerrone pela segunda vez. Na primeira disputa entre eles, há dois anos (ainda antes da entrada para a Kings), Rafael venceu por decisão, abusando de sua vantagem no solo. Dessa vez, foi necessário pouco mais de 1 minuto para o nocaute. E a vitória veio na área de destaque de Cerrone, a luta em pé. Dos Anjos reescreveu os melhores momentos do MMA brasileiro, quando os lutadores da Chute Boxe entravam nos ringues do PRIDE e nocauteavam os oponentes de forma rápida e brutal. Hoje ele é campeão da categoria mais disputada do UFC e provavelmente irá desfilar com o cinturão por um bom tempo.

Rafael Giublin

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