É tudo nosso e nada deles

No dia 19 de dezembro de 2014, há cerca de um ano atrás, Gabriel Medina abriu uma porta. A porta dos sonhos.  Conquistou o primeiro título Mundial de Surf  para o Brasil. Era de certa forma, o melhor jeito de terminar aquele ano fatídico marcado pela decepção do país no futebol com aquele amargo final de 7×1.

Teve gente que falou que ele não merecia, outros que acreditaram que mais estava por vir, e eu agradeço a todos aqueles que acreditaram, porque se achávamos que não tinha como melhorar, estávamos completamente enganados. O ano de 2015 começou da mesma forma que 2014 terminou, brasileiros dando show, mostrando que a “Tempestade Brasileira”, como a geração foi apelidada pelos gringos, não era passageira e tinha chegado para ficar.

A perna australiana foi marcada por polemicas, essas que se estenderiam até a última etapa realizada no Havaí. Medina surfando ainda melhor que em 2014, cometeu interferência e foi eliminado por Glenn Hall, que provavelmente teve esse episódio como seu maior destaque no tour. Sem o campeão mundial, quem deu show foi Filipe Toledo, o caçula da turma. Gold Coast, na Austrália, foi tomada por brasileiros que viram o Filipinho levantar o seu primeiro troféu na elite mundial. Quem assistia de longe virou a madrugada, mas pessoalmente,posso garantir que foi recompensador.

Adriano de Souza, o Mineirinho fez uma perna australiana incrível, depois de parar na semifinal em Gold Coast, e esbarrar em Mick Fanning na final em Bells Beach, finalmente o brasileiro conquistou o primeiro título do ano em Magaret River. Assumiu a liderança do ranking e chegou na quarta etapa realizada no Brasil, vestindo a camisa amarela.  

O “Oi Rio Pro”, realizado na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro mostrou que sim, o público brasileiro estava atento com o que estava acontecendo no mundo do Surf. Milhares de pessoas presenciaram o evento, em baixo de um sol quente – quente pelo menos para quem não está acostumado. A transmissão da final ao vivo na Globo. Pronto. Finalmente tínhamos quebrado mais uma barreira. Domingo, onze horas da manhã e o surf ecoava nas areias cariocas, e também da televisão em horário de pico.  E o que toda essa gente viu? Novamente um show de surf dado pelos brasileiros. Gabriel e Adriano ficaram pelo caminho, mas isso não foi um problema. Filipe Toledo, Jadson André e Ítalo Ferreira mostraram que a tempestade estava ganhando mais força e que era melhor começarem a olhar para nós com outros olhos. Aquele sentimento que brasileiro é inferior, e que só os Americanos, Australianos e Havaianos seriam capazes de feitos tão grandiosos já não eram argumentos tão consistentes.

A etapa de J-Bay sem dúvida foi um marco muito grande no tour. Com direito a ataque de tubarão e o renascimento de Gabriel Medina. O surfista conquistou o quinto lugar, mas mais do que isso, reconquistou o foco, o sangue nos olhos, o desejo de vencer.  Na etapa seguinte no Tahiti conseguiu um segundo lugar, em Trestles, na Califórnia um terceiro. Deixaram o menino sonhar, e ele estava chegando. Junto Filipe Toledo, Adriano de Souza, Mick Fanning  e Julian Wilson, Medina agora estava na briga pelo título mundial. Para concretizar essa nova fase? Campeão da etapa da França.

Foi então que veio a última etapa do ano, Pipe Masters. Nessa altura eram seis na briga pelo título, Adriano de Souza, Filipe Toledo, Gabriel Medina, Owen Wright, Julian Wilson e Mick Fanning. Era NÓS, brasileiros, contra ELES, australianos. Owen nem chegou a competir, Julian e Filipe eliminados. Último dia de campeonato em e quis o destino que as chaves colocassem Fanning e Medina na mesma semifinal. Gabriel vencendo, ajudaria Adriano a vencer o mundial e de quebra levaria o título inédito da Tríplice Coroa Havaiana. E missão dada é missão cumprida! Na última onda, o inacreditável. Medina completou um “aéreo full rotation”, desbancando qualquer que seja a lógica e também critérios dos juízes. Em qualquer outra praia tiraria um 9 alto, mas para aquele momento o 6,5 serviu para virar a bateria e ajudar o compatriota. Mineirinho precisava apenas chegar na final e o título seria seu. Ricardo dos Santos, anjo da guarda, mandou aquela onde e garantiu a primeira final brasileira na Meca do Surf. Campeão Mundial, merecidamente, resultado de muito esforço, dedicação, garra, paixão, determinação. Mineiro é aquele brasileiro que não desiste nunca, que se fortalecer com as dificuldades.

A publicidade da World Surf League já alertava: “ You cant Script this”. Eles estavam certos, não tínhamos como prever, e muito menos imaginar que no final de 2015, o Brasil conquistaria de forma devastadora TUDO o que era possível. Quem achou que o surf seria algo passageiro como uma tempestade vai ter começar a olhar o esporte com outros olhos, 2015 mostrou que não somos mais os outros, não somos nós os diferentes. Eles vão ter que se adaptar a nós, e vão ter que nos engolir. Porque se for preciso vai ser na raça, na vontade ou no grito, nós estaremos lá sim, nem que seja para completar um aéreo em PIPE ou pegar aquele tubo enviado do céu por um anjo. Se precisar fazer algo extraordinário para valer a mesma coisa que algo básico dos gringos, pode deixar que a gente faz. Sempre foi e sempre vai se assim, contra tudo e contra todos. Em 2016 nosso time está fortalecido. Seremos 10 dentro da água e milhares na praia ou assistindo pela TV. Nunca foi tão importante para gringos entender o português, pois já dizia Medina para o Glenn Hall na primeira etapa, após a interferência “Vou te ensinar uma boas palavras em português.” Vai aí algumas: É TUDO NOSSO E NADA DELES.

O surf conheceu o jeitinho brasileiro, pois quando o Gabriel mostrou que era possível, outros acreditaram, e muitos outros vão continuar acreditando. E para os havaianos, australianos e americanos é melhor aprender a sambar, pois já sabemos qual é o ritmo que vai emplacar em 2016. Obrigada pelo ano galerinha do surf, até Gold Coast!

Nicole Gulin

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