Um ano de preparo quebrado em 13 segundos

2015 não foi um bom ano para os principais campeões do UFC. Cain Velasquez, considerado por muitos como imbatível entre os pesos-pesados, caiu em dois rounds diante do brasileiro Fabrício Werdum. Ronda Rousey, o bibelô do UFC, protegida, promovida, e considerada a principal porta-voz do evento, foi derrotada e mostrou suas diversas falhas (bem como a falta de qualidade das suas adversárias anteriores) diante da ex-boxeadora e lutadora de kickboxing Holly Holm. Agora foi a vez de José Aldo, principal campeão do evento e número 1 pound-for-pound (ranking que envolve todos os lutadores de todas as categorias) e do invicto Chris Weidman, carrasco de Anderson Silva, caíram. E, de forma dramática, para Aldo, foi necessário apenas 13 segundos para definir um ano inteiro de preparação e disputa psicológica por detrás dos microfones. Já Weidman, nocauteado no terceiro round, o sofrimento foi um pouco maior, mas a dor é a mesma.

Aldo, ao contrário de Ronda, não é o lutador mais carismático, nem o mais querido do UFC. Dana White fez questão de deixar claro como ficou desapontado e irritado com o brasileiro após a lesão de última hora que causou o adiamento da disputa contra o irlandês Connor McGregor. Mais do que isso, Aldo é um homem simples, que não faz questão de aparecer ou vender as lutas através de ladainha, não fala inglês e não tem muito carisma. E também há o fator octógono. No UFC, Aldo não fez questão de dar show como fazia no WEC. Suas lutas se tornaram muito mais burocráticas e pragmáticas. Dessa forma, Dana White já se apressou em dizer que não vai haver revanche imediata, o que seria o mínimo para retribuir a Aldo tudo o que este fez pelo MMA. Aldo, nocauteado em 13 segundos, perdendo uma invencibilidade de dez anos, não ganha revanche. Mas Ronda, que luta MMA há apenas quatro anos, é protegida de adversárias realmente perigosas (obviamente falo da Cris Cyborg), recebe revanche imediata após ser massacrada por dois assaltos, provando uma disparidade técnica gigante perante sua oponente.

Mas não há necessidade em falar de justiça. O UFC nunca foi justo com seus lutadores e campeões, e sempre visou, sem disfarçar, os valores monetários mais favoráveis, independente de rankings ou critérios objetivos. Além disso, Aldo dará a volta por cima e irá provar que é merecedor de uma nova disputa de título, seja ela contra McGregor, ou contra Frankie Edgar (que foi confirmado como próximo desafiante ao título dos penas). Já a McGregor, a nova galinha dos ovos de ouro do UFC, foi dada a opção de enfrentar Edgar ou de subir de categoria e enfrentar o vencedor da disputa do título dos leves (entre Rafael dos Anjos e Donald Cerrone). Acredito que subir de categoria seria uma decisão equivocada para o irlandês, ainda que tenha ficado claro que ele sofre para bater o peso da categoria dos penas, e que é precipitado oferecer-lhe a disputa de cinturão do peso de cima. Ele é campeão oficial há poucos dias e já pode furar a fila da categoria mais disputada do UFC, que nem é a dele. É a diferenciação gritante no tratamento dos lutadores.

Máquina de lutar

Outra das surpresas da noite foi Luke Rockhold. Não pela vitória, já que a disputa com o então invicto Chris Weidman, era imaginado, seria parelha. Mas Rockhold mostrou que as previsões estavam erradas. Após um primeiro round difícil de definir um vencedor, Weidman já mostrou alguns sinais de cansaço, enquanto Rockhold conseguiu impor seu ritmo e ser superior em pé, chegando muito perto do nocaute no fim do round, enquanto batia incessantemente em Weidman no chão – mais um erro de Herb Dean em não ter encerrado a luta, já que o round seguinte comprovou que Weidman realmente não tinha mais condições, quando ele apanhou gratuitamente.

Rockhold evoluiu de forma surpreendente. Ainda no Strikeforce ele se mostrava um lutador completo, de grande envergadura, muita noção de distância e bons chutes, porém, ainda era um pouco burocrático. Hoje Rockhold parece lapidado em todas as áreas do MMA e consegue ser bastante agressivo. Talvez seja um pouco equivocado de minha parte, mas não consigo ver oponentes para ele na categoria dos pesos-médios.

Yoel Romero, provável desafiante, mostrou não ter o preparo necessário após suapolêmica vitória sobre Ronaldo “Jacaré” Souza, tendo cansado rapidamente e agido de forma suja, mais uma vez, ao segurar a grade por diversas vezes para evitar ser quedado. Considerei vitória de Jacaré, que poderia até ser mais clara caso o árbitro optasse por tirar um ponto de Romero, ou, no mínimo, um empate, caso os juízes considerassem o primeiro round como 10-8 para o cubano (apenas um deles marcou essa pontuação). Romero, apesar de já ter 38 anos, é um monstro, excepcional wrestler, muito forte fisicamente, criativo em pé e de mãos pesadas. Mas ainda tem muitas falhas, especialmente na parte física, o que é difícil de corrigir na sua idade. Jacaré, por sua vez, já foi derrotado pelo novo campeão, em disputa de título do Strikeforce, sem mostrar chances de reação. Jacaré evoluiu muito desde lá, mas Rockhold evoluiu ainda mais.

Já Weidman é um lutador completo e habilidoso, mas mostrou não ter condições de enfrentar Rockhold de igual para igual sem reavaliar seu próprio jogo e seu preparo físico. Sobra para Vitor Belfort, último carrasco de Rockhold, a chance de derrotar o campeão. A explosão e agressividade do brasileiro pode ter o efeito surpresa necessário para tomar o cinturão. Entretanto, o campeão ainda é amplo favorito, ainda mais com o histórico de Belfort de pipocar nos momentos mais importantes.

Rafael Giublin

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