“Naqueles Dias”

O que você faria se sua companheira dormisse na sua casa e a menstruação dela vazasse para a roupa, cama etc? Me chamou a atenção quando vi uma pessoa perguntando isso num grupo do Facebook. Em pouco tempo o post já tinha diversos relatos de mulheres contando suas experiências. “Meu namorado ficou muito bravo comigo quando isso aconteceu porque eu manchei a cama dele. A gente brigou feio”, disse uma mulher.

Eu lia aqueles comentários absurdos e não acreditava. A maioria dos relatos dizia que os parceiros (homens) não avisavam que a menstruação havia passado na roupa ou então que ficavam bravos da mulher ter “sujado” a roupa de cama. Mas, além disso (acredite, a coisa só piorou), as mulheres passaram a contar das vezes que as pessoas disseram que elas estavam “naqueles dias”, para justificar alguma sensibilidade ou irritação da mulher.

Perdi a conta de quantas vezes ouvi minhas colegas usarem a expressão “naqueles dias”. Do meu grupo de amigas, fui a última a menstruar. Também fui a última a ter um namoradinho na escola, e nunca me senti mal por isso (apesar da pressão que as meninas faziam em cima disso). Mas lembro que sempre fui muito ansiosa para menstruar e, finalmente, ser mocinha.

Finalmente, aos 15 anos menstruei e não foi nada do que eu esperava: ninguém me olhou e disse que eu já era moça e não recebi presentes dos meus pais como minhas amigas receberam dos seus. Foi normal como deve ser. Hoje, aos 21, entendo que a menstruação é algo natural, que pertence a vida de toda mulher (cis). Mas é difícil para uma adolescente entender isso, já que o machismo está presente em nossas vidas diariamente e somos ensinadas a não falar sobre menstruação.

– “Não podemos falar com nossos pais, avôs, tios, amigos ou qualquer outro homem sobre menstruação.”

– “Não podemos transar menstruadas, pois isso é nojento.”

– “Se estamos menstruadas, devemos evitar dormir fora de casa, pois o risco da menstruação vazar é grande. Imagina que vergonha?”

Há coisas que marcaram muito minha adolescência. Lembro que comprava com frequência revistas como a Capricho, para acompanhar as novidades, os looks que eu deveria usar, as maquiagens indicadas para um aniversário de 15 anos, etc. Era uma menina insegura e, por isso, acreditava que seguindo as dicas da revista eu seria uma adolescente pop na escola. Lembro do dia em que a revista publicou um relato de uma menina contando que ela era zoada pelas amigas porque tinha 12 anos e já menstruava. Achei aquilo um absurdo, porque minhas amigas já tinham menstruado e esse tipo de bullying não acontecia entre nós (não até eu menstruar).

Quando menstruei, me senti adulta, mais mulher, mais madura. Chegando à escola, resolvi não contar pra ninguém. Estava na sala de aula quando percebi minhas quatro amigas rindo, cochichando, e não me dizendo o que estava acontecendo. Eu perguntava, elas não respondiam. Apenas riam descontroladamente. A professora de história parou a aula para saber qual era o motivo da risada e elas diziam que não era nada. Quando levantei da cadeira onde estava sentada, a professora veio, pediu para que amarrasse uma blusa na cintura, e então me contou que minha menstruação havia passado para a roupa.

Talvez você acredite que essa reação que minhas amigas tiveram foi porque elas eram adolescentes. Mas a verdade é que as pessoas tratam a menstruação como se ela fosse algo de outro mundo e, por isso, têm medo de falar sobre esse sangue. Grande parte da sociedade acha a menstruação uma aberração. Se uma mulher de 30 anos estiver com a roupa manchada, ela será motivo de riso para muitos (além de demorar a descobrir o real motivo).

Vivemos ouvindo que nosso sangue é nojento. E eu me pergunto: “Por quê?” É apenas o nosso corpo respondendo a uma coisa natural. A menstruação nada mais é que a descamação da camada interna do nosso útero, também conhecido como endométrio. O que acontece é o seguinte: o endométrio é uma “parede” (formado pelo epitélio cilíndrico) que reveste o interior do útero. Quando estamos na época de menstruar, o endométrio expele todos os resíduos que não precisamos no nosso corpo (e isso ocorre em forma de sangue).

Mas além de menstruar e ser “obrigada” a ouvir que seu sangue é sujo e nojento, a mulher também passa pela “Tensão Pré Menstrual”, a famosa e temida “TPM”, período que antecede a menstruação e que nossas emoções ficam a flor da pele. Algumas mulheres dizem não passar por isso, mas muitas passam e ficam sensíveis, tristes, felizes, empolgadas, com raiva etc.

Isso que sentimos é alvo de diversos argumentos machistas. É só estarmos irritadas que vem alguém (pasmem, geralmente esse alguém é homem) dizendo que estamos de TPM. Será que nunca ninguém pensou que temos problemas pessoais e que nem sempre nossa irritação ou sensibilidade é TPM?

Todo esse estereótipo criado em volta da menstruação precisa ser quebrado. Para quebrá-lo, acredito que há dois processos iniciais: o primeiro, e talvez o mais difícil, é acabar com o pensamento machista de que menstruação é algo sobrenatural. Nós podemos e devemos falar sobre isso. O segundo ponto é a questão da aceitação. É totalmente compreensível que muitas mulheres não gostem de menstruar (afinal, grande parte sofre com a cólica). Mas o que quero dizer aqui, é que precisamos conhecer o nosso corpo e a forma como menstruamos.

Você não precisa amar menstruar. Você só precisa perceber que a menstruação não é o fim do mundo, que é natural e que você não precisa ouvir das pessoas que você está suja, quando na verdade o seu corpo está funcionamento perfeitamente.

Ame-se.

Tayná Soares

*Esse conteúdo não reflete a opinião do portal Conexão News. A responsabilidade do texto é de seu autor.

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