Nossos rótulos diários

Logo nos primeiros dias deste ano, liguei para uma agência prestadora de serviços, para falar com uma pessoa da diretoria, a atendente, após eu dizer o meu nome, exigiu que eu falasse de qualquer jeito de “onde” ou qual empresa eu representava.

Finalmente após eu insistir de que não representava nenhuma empresa ou local, mas sim queria ser atendida simplesmente por ser unicamente eu, ela me transferiu. Fiquei pensando e analisando sobre isto um longo tempo, temos vários rótulos que acabam nos dando uma identidade e nós a assumimos conforme a situação ou o local em que atuamos, vamos dizer que nosso “eu social” tem várias faces, bom até aí, tudo bem, tanto a Psicologia, a Antropologia, Sociologia e Filosofia, conseguem explicar tal fato, mas o que me incomoda mesmo é perceber que muitas vezes não conseguimos nos despir dos rótulos.

Muitos deles nos escravizam, por exemplo, quando representamos uma empresa de renome e importante, isto nos dá uma certa segurança, apesar da impessoalidade, buscamos o  “status” que ela nos oferece. Associar um nome a empresa famosa nos dá um ar de “Important Person”, realmente as pessoas nos tratam melhor quando fazemos parte de um grupo importante.

Todos os dias, ao levantarmos da cama, perdemos nossa verdadeira identidade e ali colocamos um outro rótulo, assumimos ser alguém que não somos verdadeiramente. Há quem assume uma e não se despe mais, não troca mais a máscara que veste, e mesmo estando em outras atividades ou em um lazer ainda sustenta a imagem que mais lhe agrada, que é mais aceita e trás mais simpatia mediante a sociedade que nos observa. Eu mesma passei por isso muitas vezes e a maior prova foi tentar livrar-me dos rótulos que me distanciavam do meu verdadeiro eu.

De certo, nosso ego, agradece quando somos ovacionados pelas pessoas, mas temos que nos preparar psicologicamente, caso não possamos mais usar a tal imagem, não podemos nos sentir “um nada”, um nada dentro de uma pessoa comum, pois o grande desafio é este “quem sou eu?” E qual a relação minha, deste meu eu verdadeiro, com a sociedade que me obriga e vicia a usar um rótulo, criar uma imagem, forjar uma identidade que não nasceu comigo.

Desafio alguns a olhar no espelho e tentar se concentrar naquele eu deixado para trás há muito tempo, aquele ‘eu’ que merece e combina com o seu nome, sua identidade primeira, moldada aos poucos pelas várias circunstâncias sociais que passou de lá para cá. Ela existe, só precisamos reencontrá-la. Boa sorte.

Maria de Lourdes

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