Testes e as doideiras do “Tio Bernie”

CASSIO BIDA

Muita quilometragem e poucas surpresas. Assim foram os primeiros quatro dias de testes da Fórmula 1 em Barcelona. Semana que vem, entre os dias 1 e 4 de março, tem mais. Vai ser o último ensaio antes do começo da temporada na Austrália em 20 de março.

Mais importante que qualquer tempo marcado nos quatro dias (até porque marcas espetaculares foram estabelecidas com os pneus ultramacios, uma das novidades da Fórmula 1 para esta temporada), é analisar com base no que cada equipe fez até aqui.

A Ferrari pode até ter sido a mais rápida, especialmente com Sebastian Vettel, nos dois primeiros dias de treinos. A atenção maior, porém, foi para a consistência da Mercedes. Lewis Hamilton e Nico Rosberg completaram juntos 674 voltas (cerca de 3 mil quilômetros). E sem sofrer nenhuma pane no meio do caminho. A Ferrari ficou boa parte da manhã de quarta parada por conta de uma pane no carro de Kimi Raikkonen.

Panes que voltaram a assombrar a McLaren. Mas, para alívio dos fãs da escuderia, apenas no último dia. Comparando com o ano passado, quando mal andaram, Alonso e Button conseguiram também uma boa quilometragem. Sinal de que os japoneses evoluíram e podem dar passos melhores em termos de confiabilidade. Agora, para bater as Mercedes (como Fernando Alonso andou bradando aos quatro cantos em entrevistas), vão precisar de muito trabalho.

A Manor parece que deixou seus dias ruins para trás. O trabalho de Pascal Werhlein foi surpreendente a ponto de deixar a nanica do grid em boas posições no ritmo de voltas. Quanto ao Haryanto, só Rio. O indonésio pouco andou e, quando o fez, desfilou algumas barbeiragens. Há quem diga na internet é o novo Maldonado. Mas, como nunca chegará aos pés de deuses como Maldonado, Nakajima e Katayama, Haryanto veio, ao que parece, com todas as credenciais para ser o novo Yuji Ide.

Na briga de forças pelo meio, destaque para a Renault, com equipe própria e um Magnussen rápido; a Force India, que chegou a marcar o melhor tempo no terceiro dia; e a Red Bull que parece ter reencontrado o caminho para um ano de sucesso. A Haas também começou bem e mostra que não veio para fazer fiasco no seu ano de estreia.

Quanto aos brasileiros, ainda é preciso aguardar um pouco mais para fazer melhores avaliações. Felipe Nasr andou com a Sauber de 2015 coletando dados para o novo modelo que será lançado nos testes da semana que vem. Felipe Massa também não esteve entre os melhores tempos e, comparado ao companheiro Valtteri Bottas, andou pouco. Mas gostou do que sentiu com o novo carro da Williams, embora o desempenho não tenha sido dos melhores. Para se manter entre as três melhores, a Williams vai ter que suar e trabalhar muito.

Semana que vem, entre terça e sexta, novas baterias de testes vão promover o último aquecimento para os pilotos com os carros de 2016 antes da abertura do mundial.

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Nesse meio tempo entre os testes, duas coisas chamaram a atenção. Vários carros andaram cheios de sensores em vários lugares. A Ferrari, no primeiro dia, chegou a equipar o carro inteiro com fileiras e fileiras de sensores. Tudo para coletar o máximo de dados possíveis para melhorias, principalmente na parte aerodinâmica.

Não foram poucos os carros que desfilaram com grelhas nas laterais. Bem semelhantes às de churrasco. Tudo com o objetivo de analisar, melhorar a eficiência aerodinâmica dos carros. Mas não seria engraçado se eles fizessem uma carne nessas grelhas? Que tal um contra-filé à Spa? Ou uma picanha Interlagos? Vai um mignon à Monza?

Mas o que mais mexeu com a cabeça dos fãs foi mesmo mais uma loucura do dono da Fórmula 1. Isso mesmo, Bernie Ecclestone (carinhosamente chamado por mim de “Tio Bernie”) resolveu implantar uma novidade para os treinos de classificação.

Ainda está um pouco confuso como isso irá funcionar na prática. O formato continuaria o mesmo: três sessões de treinos. Agora com um “tempero”: a eliminação. Por exemplo: no chamado Q1, depois de sete minutos o piloto mais lento seria eliminado. Em seguida, a cada um minuto e meio, o mais lento ficaria de fora, deixando 15 pilotos para o Q2. No Q2, o mais lento após 6 minutos cairia fora. A cada noventa segundos, nova eliminação até restarem oito. No Q3, 5 minutos para o mais lento cair fora. E aí seguem as eliminações, sempre em 90 segundos, até a definição da pole position.

Na teoria, a ideia parece fantástica. Só que algumas dúvidas precisam ser esclarecidas: Como vai funcionar isso? Em pistas como Spa, cuja volta nunca seria completada em 1 minuto e meio, o tempo para a eliminação seria maior? E quem for eliminado? Vai ficar vagando na pista até os boxes atrapalhando quem está em volta rápida? Já pensaram no inferno que isso vai ser em Mônaco?

Parece que, na tentativa de melhorar a audiência e os atrativos na Fórmula 1, quem manda no negócio não pensa direito. Para se ter uma ideia, nos últimos 20 anos seria a quarta mudança no sistema de classificação. Desde todo mundo entrando para apenas uma volta lançada até a soma de tempos nos treinos. Tudo para tentar tornar o sábado mais interessante. No fim, quanto mais mudam, mais parecem complicar as regras. Não duvido que, num futuro não muito distante, eles queiram voltar com a história dos descartes de pontuação

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