A sabedoria, leveza, e harmonia de Dona Mie

Por: Maria de Lourdes

Havia me separado recentemente e naquele momento fui em busca de uma nova vida. Com três filhos pequenos e muitos sonhos na bagagem, em uma cidade estranha ainda por conquistar, conheci dona Mie, uma senhora japonesa de aparência frágil, mas com um semblante tão sereno que demonstrava sua força.

Dona Mie nos alugou uma casinha nos fundos da sua casa, que apesar de pequena, era bem construída e bem acabada, dentro dos padrões japoneses de arquitetura. Entrávamos quintal adentro pelo corredor lateral á sua casa pelo piso acabado em caquinhos de cerâmica com a parreira de uvas que espalhava um aroma agradável da fruta pela casa.

Em meio aos conflitos e dúvidas que eu trazia naquele momento da minha vida e que me cobrava decisões rápidas, eu vivia calada, pensativa, e consequentemente mais observadora. Dona Mie surpreendia-me quando me chamava de “menina” e ao portão entregava uma cesta recheada de uvas que alegravam nossa tarde.

Um dia pela manhã acordei com o som de uma música japonesa e pela janela vi dona Mie em seu jardim no alto da casa praticando o Tai-Chi-Chuan, fiquei por horas observando seus movimentos harmônicos, sua habilidade e sua tez suave, qual o tempo não ousava subornar.

Em uma tarde ensolarada, ao voltar do trabalho, fui surpreendida por ela mais uma vez, ao entregar-me uma fita com as músicas japonesas gravadas ela me deu dicas e aulas sobre meditação e exercícios que me ajudariam a livrar-me das dores musculares que eu sentia.

“Muito estress!”, dizia ela, com um português ainda confuso e enrolado e que eu me esforçava para compreendê-la, mas consegui adquirir um conhecimento muito importante sobre a sua cultura. Com Dona Mie, aprendi o ritual do chá, conheci os benefícios do chá verde e através da meditação aprendi a controlar a respiração e aliviar o corpo e a mente do estresse. Alguns anos depois nos mudamos de lá, mas a lembrança de Dona Mie nunca mais saiu de minha cabeça e ás vezes me pego relembrando e com saudades daquela pequena senhora vestida em quimono, com sua tez suave, olhar sereno e uma bagagem de sabedoria que não encontrei em nenhuma outra mulher daquela idade.

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