Nelson e o ato futebolístico – Conexão News

Nelson e o ato futebolístico

DANI

“Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola. A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakesperiana. Às vezes, num córner bem ou mal batido, há um toque evidentíssimo do sobrenatural. “O meu personagem de hoje é Nelson Rodrigues, ninguém descrevia uma pugna como ele, por isso sua escolha, afinal de contas a frase de sua autoria que comecei esse texto já diz tudo.

Quase cego, Nelson mal conseguia de longe diferenciar banana de maça, quem dirá acompanhar nos mínimos detalhes os jogos no Maracanã ou Estádio Mario Filho como descrevia em suas crônicas. O Maraca deixa os espectadores há anos luz de distância do gramado, Nelson necessitava que alguém assoprasse em seus ouvidos os lances, porém nunca na história futebolística nacional alguém conseguiu descrever tão fielmente uma pelada.

A famosa frase já citada, do nosso anjo pornográfico diz a mais pura verdade, seja num atletiba ou arranca-toco, as intensidades do jogo são as mesmas, basta alguém que consiga descrevê-las. E Nelson fazia isso como ninguém, tinha uma ótica privilegiada. Seu olhar metafórico percorria o campo pedaço por pedaço de grama. Todo santo domingo se dirigia ao ex-maracanã para acompanhar os anjos e demônios que iria descrever mais tarde em suas crônicas, as quais que possuem vida própria, não perdem o charme, são atemporais. Sua escrita tinha de tudo um pouco, havia poesia e drama, romance e ação. Ele nos mostrou que no estádio não podemos nos atrelar somente ao jogo em si. O lado arte do futebol, da beleza, cultura, aquele ponto que poucos enxergam, o momento mítico de um certame, isso Nelson descrevia de um modo que alçava a condição de deuses os participantes do espetáculo. Pois de fato, como o anjo pornográfico poderia dizer, não existe no mundo do futebol craques com a polidez que os nossos possuem.

Até hoje vivemos a inferioridade nacional perante ao resto do mundo, que Nelson Rodrigues intitulava ser nosso “Complexo de vira-latas”. Só os bobos, os tapados não concordam com essa realidade. Um triunfo sem show, apoteose é só uma mera partida hoje em dia, mas se tivéssemos Nelson’s espalhados pelas redações Brasil a fora, um jogo como Combate Barreirinha e Novo Mundo ganharia contornos épicos, pois Nelson não dava a mínima para frígida aritmética do esporte bretão. Não faltaria a mulher bonita, muito menos as grã -finas das narinas de cadáver.

Amigos, eu considero um pobre diabo o brasileiro que nunca leu uma crônica do menino que via o amor pelo buraco da fechadura. O belo, o patético é que ninguém nunca se esquece das palavras que leu.Um escrete nunca mais é o mesmo após ser retratado pelas dignas palavras de Nelson. Como diria ele, é chato ser brasileiro, ser pentacampeão, é chato não ter os ídolos do tetra e do penta retratados e imortalizados por suas palavras.

Nenhuma seleção canarinho vai ser tão bem falada como as que Nelson descreveu, acompanhou, presenciou, imortalizou. Amigos, não sei se sabem, mas o sublime cronista fascina a mulher  que sempre esteve presente em seus textos. “Nem toda mulher gosta de apanhar, só as normais”, dizia o grande Nelson. Se formos falar em festa do futebol, do jornalismo, das crônicas, temos que impreterivelmente falar de Nelson Rodrigues.

Ele que sempre se dizia um anjo pornográfico, o menino com olhos ávidos que via o amor pelo buraco da fechadura, podemos dizer que nós, simples mortais, vemos a graça do velho esporte bretão através de seus textos imortais. Pois se Vinicius não consegui com seu soneto definir o amor, Nelson com suas crônicas definiu o futebol.

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