Tumulto entre os taurinos

CASSIO BIDA

O mundo da Fórmula 1 acordou nesta quinta com uma surpresa: Daniil Kvyat não é mais piloto da Red Bull. Ele volta para a Toro Rosso e será substituído pelo holandês Max  Verstappen.
Trocas de pilotos são comuns no final do ano, entre uma temporada e outra. Mas, com uma temporada em andamento, uma troca desse estilo é novidade. Pelo menos, nos últimos 25 anos. É fato que Daniil Kvyat andou exagerando nas brigas de posições com Sebastian Vettel nas duas últimas corridas. Na China, graças a uma largada arrojada, foi bem sucedido e conseguiu levar a Red Bull a um pódio. Na Rússia, diante de sua torcida, o dono do carro 26 foi afoito, afobado. E, em dois toques, selou o destino de Vettel, da equipe e dele mesmo na prova.
A insatisfação do tetracampeão foi tão grande que o próprio foi reclamar com o ex-chefe Christian Horner com a prova em andamento. Helmut Marko, consultor da Red Bull, anunciou aos quatro ventos que teriam uma conversa séria com Kvyat e grandes decisões sairiam dali.
O que surgiu como especulação ao longo da semana se confirmou na madrugada de ontem. Como a Red Bull é dona de duas equipes, e de acordo com a própria tem contrato de longo prazo com os pilotos, há a facilidade nesta troca. Com isso, Kvyat volta à Toro Rosso e o jovem holandês Max Verstappen será promovido à equipe-mãe.
A última vez que uma troca destas mexeu com as estruturas do mundial foi em 1991. Na época, um jovem alemão estreava pela então nanica Jordan e, uma corrida depois, foi promovido à Benetton tirando o lugar do brasileiro Roberto Pupo Moreno, companheiro de equipe do tricampeão Nelson Piquet. A desculpa foi o desempenho abaixo da média de Moreno, por isso a substituição por um piloto jovem e, em tese, mais motivado. O nome daquele estreante alemão? Michael Schumacher.
A própria Toro Rosso cometeu algumas trocas que foram, para muitos, carregadas de excessos. Que o diga o espanhol Jaime Alguersuari. De tão queimado que foi na Toro Rosso acabou encerrando a carreira.
Por lambança, a última demissão foi a de Yuji Ide da já finada Super Aguri em 2006. Pudera, o japonês era tão lento, mas tão lento que chegou a ficar 4 segundos atrás do penúltimo colocado no grid. A gota d’água foi um acidente grave em San Marino no qual Ide capotou e tirou um piloto fora da prova. Resultado: Super Licença cassada e fim de carreira para o japonês.
Só o tempo irá dizer se a decisão da Red Bull foi acertada ou precipitada. A curiosidade na semana que vem será grande. Como Kvyat irá reagir ao “rebaixamento”? E Verstappen? Estaria preparado, aos 18 anos, para assumir o cockpit de uma equipe grande? A Catalunha será o palco das primeiras respostas.
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Sobre a corrida em si, incidentes da primeira volta à parte, foi mais um passeio. E desta vez, sem exageros, podemos dizer que foi um passeio no parque. Afinal, a pista fica dentro do parque olímpico de Sochi, palco das olimpíadas de inverno de 2014.
Já são quatro vitórias consecutivas neste ano. Se contarmos desde o GP do México de 2015, são sete. Neste final de semana, definitivamente, Nico Rosberg colocou seu nome entre os grandes da Fórmula 1.
Primeiro ao igualar a marca de pole positions de dois Monstros (assim, com m maiúsculo mesmo). Assim como Niki Lauda e Nelson Piquet, Rosberg agora tem 24 poles. Depois, no domingo passado, ao conseguir igualar o recorde de vitórias consecutivas conquistado por Michael Schumacher em 2004.
Como disse em coluna anterior, quem começa com um domínio assim, vencendo as quatro primeiras da temporada, dificilmente perde o título. Foi assim com Senna em 1991, Mansell em 1992 e Schumacher em 1994 e 2004.
O ano é de Rosberg. Tudo dá certo para ele desde o início da temporada.
Enquanto Hamilton sofreu, teve de fazer das tripas coração para se recuperar e chegar em segundo. O caminho para o tetra do inglês é cada vez mais difícil.
Há que se considerar: o caminho é longo. São 21 etapas. Ainda há muita coisa em jogo. Mas, a se julgar o domínio e o controle da ampla vantagem, atualmente em 43 pontos a favor do alemão, dificilmente teremos uma mudança de forças neste ano.
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Nos treinos livres, outra novidade buscando a segurança dos pilotos foi testada. A chamada aeroscreen (em tradução direta aerotela), uma espécie de visor que tampa totalmente a frente do piloto no carro. O que, a princípio, proporciona uma proteção total acima do cockpit sem atrapalhar o campo de visão do piloto.
Esteticamente, a peça é mais bonita em relação ao Halo, testado durante a pré-temporada em Barcelona. Segundo Daniel Ricciardo da Red Bull, responsável por testar a novidade em Sochi, a visibilidade é ótima e não prejudica, nem mesmo, o espelho retrovisor.
Sem medo de errar, se a Fórmula 1 tivesse adotado tal peça em 2009, Felipe Massa não teria sido atingido pela mola da Brawn de Rubens Barrichello na Hungria. Mas pouco ajudaria nos acidentes de Jules Bianchi e, mais recentemente, de Fernando Alonso.
O risco é inerente ao esporte a motor. Qualquer coisa que melhore a segurança dos pilotos deve ser implementada. Resta saber qual solução será adotada. E se, principalmente, em caso de corridas chuvosas, a aeroscreen vai atrapalhar ainda mais a visibilidade já prejudicada dos pilotos nestas condições.
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Em Imola, há 22 anos atrás, o final foi o mesmo de Sochi. Um piloto alemão chegando em primeiro e uma Ferrari na terceira posição.
A grande diferença: se na Rússia o clima era festivo e feliz, na Itália não havia razões para se comemorar. O champanhe sequer foi estourado e, horas depois, a Fórmula 1 contabilizava sua segunda morte em menos de 24 horas.
A grande coincidência: um alemão terminou como campeão do mundo a frente de um piloto inglês. Tragédias, felizmente, não deveremos ter. Agora, um final semelhante ao de 1994, pela configuração deste campeonato, não está nada impossível de se acontecer.

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