O ouro dos filhos deste solo!

Danilo

Sábado, dia 20 de agosto de 2016, dia em que todos os caminhos do Rio de Janeiro levam a mesma direção: o Maracanã. Dia de final olímpica do futebol, aquele tão sonhado ouro, sabe? Por falar em sonho, quem nunca sonhou quando criança jogar uma final de campeonato no Maraca? O templo do futebol mundial sempre esteve presente no imaginário de toda criança que corre com uma bola nos pés, no meu sempre esteve e aposto que no seu também meu caro leitor. Como amante do velho esporte bretão não podia deixar de viver de perto essa paixão brasileira chamada futebol.

Querendo sentir o clima do jogo decidi ir de metrô até o Estádio Jornalista Mário Filho, como Nelson Rodrigues sempre chamava o Maracanã. Na estação Cardeal Arco Verde, em Copacabana conheci dois jovens de Brasília, seria a primeira vez deles no gigante de concreto, estavam pedindo informações, conversamos rapidamente, desejei bom jogo e embarquei no trem. Lá dentro conheci uma família paulista que havia chegado na capital fluminense na madrugada, estavam indo para o Maraca também, aliás, acho que todo o vagão que desembarcou na estação de Botafogo estava indo para o mesmo lugar, afinal, como disse, todos os caminhos levavam ao Maracanã.

Cheguei no estádio, passei pela revista, subi os cinco andares e cheguei nas tribunas de imprensa, o Maraca ainda estava vazio, faltavam três horas para o jogo, mas lá fora antes de entrar pude perceber o clima de uma final, a paixão nos olhos de cada um e um desejo em comum: o ouro! Ao mesmo passo que o palco da finalíssima vai enchendo, os jornalistas também vão lotando as tribunas. Ao meu lado esquerdo um jornalista do New York Times, ao meu lado direito três japoneses simpáticos vestidos com as camisetas do Brasil. Logo a minha frente um grupo de uns sete jornalistas alemães (ai meu Deus, seria um prenúncio?).

As horas vão passando, o início do jogo vai se aproximando. O clima de festa da torcida na semifinal não existia. Antes da bola rolar era fácil de notar um clima de apreensão no ar. Era final, porra! Não tinha como ser diferente. Pouco mais de 40 minutos antes da bola rolar a água começou a cair no Templo Sagrado como se fosse cachoeira, era aquela chuva para lavar a alma dos brasileiros, para esquecer o passado, o 7 a 1, nem que seja por uma noite apenas.

A bola rolou pontualmente às 17h30, antes porém, os pelos dos meus braços se arrepiaram inteiros ao ouvir o “Pátria amada, Brasil!” cantado a plenos pulmões pela torcida no estádio. Era uma final no Maraca, a ficha ainda não tinha caído na minha pessoa. A partida começou tensa, logo de cara um chute e a belo caprichosamente explodiu na trave do goleiro brasileiro Weverton. A japonesa ao meu lado colocou as mãos na cabeça, me lembrou muito as grã finas das narinas de cadáver das crônicas de Nelson Rodrigues. Aliás, imaginei como ele se sentiria vendo a história ser escrita no Estádio Mario Filho, como ele retrataria a partida.

Enquanto imaginava, outro ataque alemão acontecia e novamente outra bola na trave, na mesma trave de antes. Ufa! Eis que um gênio começa a aparecer, Neymar chama a responsa, bate no peito, inflama a torcida e vai para cima. Após uma falta forte nele, mais uma como outras tantas que ele já sofreu, ele ajeita a bola. A barreira em seu lugar, o goleiro lá, esperando para ver um cruzamento ou uma bola direta. Eu empurro levemente para trás minha cadeira, vai que sai o gol, né? E não é que aconteceu isso? Neymar bate magistralmente a falta. Ela ainda toca na trave, no chão e balança a rede. Gol! O estádio vai a loucura. Estamos na frente. Eu, assim como os japoneses ao meu lado e outros jornalistas brasileiros, pulei, pulamos.

No começo do segundo tempo aquele gol que ninguém queria, o da Alemanha. Por um breve momento o silêncio no estádio foi ensurdecedor, mas para alegria geral da nação os gritos de “Brasil, Brasil” voltaram. No decorrer da partida não teve muito como raciocinar. As mãos juntas na frente do meu rosto eram a imagem do restante do estádio também. Eram gritos de baixo calão nas arquibancadas, era filho da puta sendo soltado por jornalista brasileiro. Os sete alemães na minha frente pareciam se divertir com o desespero brasileiro.

Meu coração palpitava, acelerado que só ele. Nessas horas deixar o sentimento de lado, deixar de torcer para sua pátria, não tem como. É aquela velha máxima, a gente aguenta, mas quando o negócio aperta, haja coração como diria Galvão Bueno. Em minha mente imaginava como estaria em casa, se o nervosismo seria tamanho o que estava sentindo no estádio. Afinal de contas, nervoso assim só costumava ficar em jogos do Santos.

O tempo normal se esgotou, a torcida se esgotou, os jornalistas, eu, todo o estádio respirou brevemente, suspirou e soltou um “Vamo, Brasil”. A prorrogação estava aí, era ver para crer, para o povo sofrido brasileiro, nada pode ser fácil, tem que ter emoção, nervos à flor da pele. O primeiro tempo da prorrogação foi nervoso, era nítido que nenhuma das duas equipes queriam se arriscar, valia o ouro. Mas, para o Brasil, valia acima de tudo a honra. Não podia perder duas competições importantes seguidas em casa. Por favor deuses do futebol, sem outro Maracanazzo, ou outros azzos que possam existir.  As mãos em forma de reza na frente de meu rosto era algo já comum. A cada lance do Brasil ou da Alemanha meu coração disparava. Conversava com meu irmão e minha namorada pelo celular, ambos também estavam nervosos assistindo pela TV. Imaginei como minha mãe estaria, talvez preocupada comigo, ela sabe o quanto fico nervoso nessas situações futebolísticas.

O tempo passa, as penalidades máximas eram cada vez mais evidentes. Eu pedia a todo tempo para que não. Nunca vi disputa de pênaltis em um estádio, não queria que fosse a primeira vez. Mas não teve jeito, fomos para a marca da cal e meu coração a mil batimentos por minuto. Primeira cobrança de cada lado perfeitas, segunda, terceira, quarta, para na última cobrança alemã, Weverton pular bonito e espalmar. Estava nos pés de Neymar o ouro brasileiro, o título que faltava, a redenção dentro do Maraca. O estádio inteiro de pé, Neymar corre, na minha visão ele foi em câmera lenta, bola para um lado, goleiro para o outro. É gol, é ouro, é emoção, choro. Assumo amigos, eu chorei depois que pulei muito. Abaixei a cabeça, encostei na tribuna de imprensa e chorei. Choro de alegria, igual aquele no ouro da Rafa Silva, mas hoje tinha um sentimento diferente. Eu vi a história ser escrita no maior templo do futebol, vi o Brasil ganhar um título inédito, quis por um momento estar com meu pai e irmão para comemorar, mas desejei que tudo fosse igual, que o roteiro do jogo fosse o mesmo e eu aqui sozinho, comemorando e gritando “É campeão” no Maracanã. Estava no estádio como jornalista é claro, mas não teve um que não tenha feito o mesmo. Foi bonito, foi sofrido, nos pênaltis. E no fim, fomos nós os donos da festa. Pode comemorar, pode gritar, o ouro ficou no Brasil e o Maraca… ah, o Maraca é nosso.

Pátria amada, Brasil!

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