Histórias de corridas históricas

CASSIO BIDA

O último domingo de maio é mágico para quem gosta de automobilismo. GP de Mônaco na Fórmula 1, 500 milhas de Indianapolis na Indy e Charlotte 600 na Nascar. Três grandes corridas, três grandes eventos. E o melhor: dá pra ver tudo em um dia só.

E minha missão foi lembrar de algumas corridas marcantes nos dois primeiros cenários. Até porque a Nascar, apesar de ter um público fiel, não recebe o tratamento que merece nos grandes meios do Brasil. Mas com Mônaco e as 500 milhas temos muita história.

Indy 500 b

Começo com a corrida da manhã. Afinal, é logo cedo que veremos aquela famosa corrida que, se não chove, não acontece quase nada de interessante. Para alguns, aquela fila indiana, que só muda de ordem por conta das paradas nos boxes. Para outros, o charme insubstituível num dos cenários mais luxuosos que a Fórmula 1 passa. Mônaco é um dos poucos palcos que permanecem firmes no calendário desde 1950. E, cá pra nós, em 68 anos de GP de Mônaco tem muita história bacana pra contar.

O Brasil tem apenas um vencedor lá. E que, por sinal, mesmo depois de 23 anos de sua partida, ainda continua como recordista incontestável de vitórias no principado. Ayrton Senna conquistou o GP de Mônaco por 6 vezes. A primeira vitória dele, por sinal, completa 30 anos. Mas não é dela que eu quero falar. Até porque, na época, eu era uma inocente criança de 5 anos e que não tem muitas lembranças dele na Lotus. Seja na icônica preta e dourada, seja na bela amarela.

Senna foi soberano no Principado entre 1989 e 1993. E só não venceu em 1988 porque se desconcentrou ao aliviar o ritmo contra o eterno rival Alain Prost. Mas a maior das suas seis vitórias não teve nenhum duelo em particular com o professor.

O combate épico com o Leão

monaco
O ano era 1992. Um ano esquisito como 2017. Presidente ameaçado de cair no Brasil, Olimpíadas prestes a começar em Barcelona e Galvão Bueno fora da Globo. Isso mesmo. Coube a Cleber Machado narrar, ainda que de maneira confusa, aquela que, para mim, foi a maior das seis vitórias de Senna em Monte Carlo.

A Williams FW-12, aquele monstro em forma de carro, dominou a temporada inteira. Não deu chance alguma à concorrência desde o início. E em Mônaco, ao que parecia, venceria mais uma. Mas corridas são corridas. E o imprevisível, vez ou outra, dá as caras.

E faltando 10 voltas para o final foi uma dessas ocasiões. Nigel Mansell, o leão, ele que seria campeão indiscutível daquela temporada, teve um pneu furado e precisou fazer uma parada de emergência nos boxes. A Williams, que aquela época não era nenhuma maravilha nos pit stops, demorou demais e devolveu Mansell bem atrás de Ayrton Senna. O brasileiro, que até então não tinha liderado nenhuma volta no campeonato, tratou de segurar o ritmo o quanto pôde.

O que se viu na sequência foi um leão atiçado, louco para devorar sua presa e garantir mais uma vitória. Mas em Mônaco nunca foi fácil de ultrapassar. E ultrapassar Ayrton Senna no principado, sem regras de defesa de posição e nem mesmo o infame DRS, era missão quase impossível. As últimas três voltas foram mágicas. Um Mansell alucinado tentando passar e Senna, com todas as suas forças, segurando. Foi um duelo raro, de extrema magia!

O final? Quinta vitória de Senna no principado, a quarta consecutiva, com direito ao motor estourando providencialmente depois da bandeirada. Tivesse a corrida mais uma volta e Senna teria frustrado a torcida. Nem parece que faz 25 anos dessa vitória fantástica.

A corrida que ninguém queria vencer

Alain Prost(FRA) Monaco GP - Monte Carlo

10 anos antes, em 1982, Mônaco tinha nos brindado com outra corrida, no mínimo, curiosa. Os acontecimentos relatados a seguir aconteceram no espaço de míseras duas voltas.

Tudo corria bem, parecia que Alain Prost venceria pela Renault, equipada com motor turbo, com relativa facilidade. Aí choveu. E chuva e Prost nunca foi uma mistura legal. Resultado: após a curva da Tabacaria, Prost bate e abandona a prova.

Riccardo Patrese, na época de Brabham e companheiro do atual campeão Nelson Piquet, passava a liderar. Não demorou muito e Patrese rodou na curva Lowes. Didier Pironi, de Ferrari, assumiu a ponta e passou a andar com extremo cuidado devido às condições traiçoeiras da pista.

Pironi parecia que comemoraria a sua segunda vitória no ano. Mas, ao entrar no túnel, acontece o impensável: pane seca. A Ferrari do francês ficava sem combustível, para desespero da torcida e dos fiscais que levaram as mãos à cabeça em desalento.

O líder seria, pela ordem, Andrea de Cesaris. Mas ele também tinha abanonado pouco antes da descida da Lowes. Derek Daly da Williams vinha na sequência. Mas, pouco antes de completar a volta na Rascasse, o carro, já danificado, abriu o bico. E o piloto também abandonou.

Para quem sobrou a vitória afinal? Patrese! Sim, ele mesmo, que tinha rodado pouco antes, conseguiu voltar à pista e venceu a corrida com um dos finais mais confusos de todos os tempos. E ainda tem gente que acha o GP de Mônaco chato.

Sobre Indy, duas lembranças

Indy 500

Agora vamos à corrida mais antiga. As 500 milhas de Indianapolis chegam à sua edição de número 101. E um século de histórias recheadas de emoção, vitórias surpreendentes, tragédias e ótimas lembranças. Em especial para nós brasileiros que comemoramos por 7 vezes uma vitória. A última vez foi em 2013 com Tony Kanaan.

Mas, em tempos de uma corrida onde Fernando Alonso será a principal atração, quero voltar 24 anos no tempo. Afinal, em 1993 foi o meu primeiro contato mais intenso com a Fórmula Indy.

Naquela corrida outro campeão mundial de Fórmula 1 era a grande atração. Nigel Mansell tinha saído da Williams para ir aos Estados Unidos em busca de mais conquistas e vitórias. Ele era uma das principais atrações das 500 milhas daquele ano.

Mansell segurou a liderança por três quartos da corrida. Mas, a 20 voltas do final, após o retorno de uma bandeira amarela, viu Emerson Fittipaldi passar feito um foguete para a liderança. Com a ponta assegurada, o brasileiro garantiu sua segunda vitória no Brickyard. No pódio, a quebra de um protocolo. Ao invés do tradicional leite, suco de laranja. Para um bicampeão mundial de Fórmula 1, campeão da Indy e duas vezes vencedor de Indianapolis poderia ser feita uma exceção. Afinal, Fittipaldi também estava investindo na plantação de laranjas na Florida, isso explica a quebra do protocolo.

A outra lembrança é de 2011. E triste por dois motivos. O primeiro pelo acontecimento na corrida em si. J.R. Hildebrand fez 499 curvas certas naquele domingo. Na última, um erro, o toque no muro, a batida, o carro se arrastando pela pista e a bandeirada da vitória… para Dan Wheldon. O piloto inglês teve sua segunda vitória em Indianapolis caindo no colo a poucos metros do fim. Por isso, as 500 milhas são sensacionais. A imprevisibilidade desta corrida é simplesmente fantástica. A segunda nota triste fica por conta do acidente fatal sofrido de Wheldon poucos meses depois em Las Vegas.

Neste domingo, novas histórias serão escritas e lembranças serão cravadas na memória do público. Tomara que sejam tão marcantes quanto as que essas senhoras corridas já nos proporcionaram.

*Reportagem especial

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *