Dolorosas lembranças

CASSIO BIDA

Tem aquelas datas que marcam a gente na vida para sempre. Não importa quanto tempo passe. As gerações mais antigas não esquecem, por exemplo, o dia da “Tragédia do Sarriá”. As mais novas ficaram marcadas por um certo 7 a 1. Outras, no entanto, mesmo que você tenha ou não vivido, são ainda mais marcantes. A ponto de você lembrar o que estava fazendo no dia. Entre elas, as que mais me marcaram foram 1 de maio e 11 de setembro. Há um ano, exatamente no dia 29 de novembro, o Brasil acordava atônito.
Lembro que acordei com a minha rotina normal. Levantei, tomei um banho, comi algo para forrar o estômago e, como de hábito, fui checar as redes sociais. Quando olhei, um misto de pânico e incredulidade. O avião que levava o time da Chapecoense para a final da Sul-Americana tinha caído.
Meu primeiro impulso natural foi ligar o rádio e acompanhar a cobertura, saber das notícias, torcer pelo melhor. As primeiras notícias, enquanto eu estava no ônibus, foram boas. Os sobreviventes foram resgatados e levados aos hospitais. Torci para que mais e mais pessoas fossem tiradas do avião com vida.
Infelizmente, ao colocar os pés no trabalho e cruzar a catraca, o baque. Só três integrantes da equipe haviam sobrevivido. Jackson Folmann, goleiro reserva, Alan Ruschel, lateral, e Neto, ambos zagueiros, e mais dois tripulantes do vôo da Lamia. Todos os demais passageiros faleceram. Setenta e uma pessoas. Entre elas: jogadores, comissão técnica e diretoria do clube catarinense. Além de jornalistas que viajavam para a cobertura.
Um ano se passou e algo mudou no futebol brasileiro? Gostaria de dar uma resposta positiva. Falar de como ir ao estádio é algo seguro. De como os clubes respeitam seus atletas. E de como torcidas fazem a festa, profissionais e jogadores se respeitando…
No entanto, tudo segue como antes no país de Abrantes. A penúltima rodada do Brasileirão produziu cenas lamentáveis. Em especial, na cidade de Campinas. A Chape, aos poucos, vai conseguindo se reorganizar. Mas, ao contrário de outros anos, sequer conseguiu fazer uma campanha memorável no Brasileirão. Ao menos, fez o suficiente para não cair à série B.
Gostaríamos de ter saído melhores dessa tragédia toda, como disse Galvão Bueno no encerramento da cobertura do velório coletivo em Chapecó. Deveríamos ter corrigido rotas, aproveitado a oportunidade para humanizar ainda mais o esporte. Ao invés disso, um filme sobre a tragédia está em produção. Se a renda dos ingressos será revertida aos familiares que perderam alguém no acidente? Não sabemos.
Uma pena nenhuma mudança significativa ainda ter acontecido. E, sinceramente, ficaremos sem saber se, de fato, isso um dia acontecerá.

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