O dia que o Dr. Sócrates me deu aula durante uma entrevista

ASSINATURA DANILO

Eu não me recordo a data que aconteceu a entrevista, mas lembro que era uma sexta-feira meio chuvosa pela bela e cosmopolita Curitiba. O local era encantador, o Paço Municipal, com sua arquitetura digna e a altura do entrevistado: Dr. Sócrates.

Eu não tive a honra de vê-lo jogar, mas conhecia histórias, a importância dele para o Brasil – sim digo Brasil e não entra apenas o futebol neste contexto. O Dr. Era um ativista político claro, com opiniões formadas e uma presença marcante na política nacional. Afinal de contas você já ouviu falar da democracia corinthiana, não é mesmo?

O Dr. Sócrates era aquele atleta que fugia do estereótipo de jogador de futebol. Cursou medicina enquanto jogava, decidiu se formar em uma faculdade e dividir seu tempo com as aulas de medicina. Você imagina isso nos dias atuais?  Eu não!

Meu pai sempre me falou da classe que o Sócrates tinha com a bola nos pés e os vídeos só comprovavam isso. A seleção de 1982 então, pelo amor de Deus, o que era aquilo? Não canso de ver seus vídeos. Sócrates era um craque, os passes de calcanhar com uma leveza e precisão que parecia que ele tinha olhos nas costas ou no calcanhar. Era uma classe tremenda.

Pena que aquela seleção não ganhou a Copa? Nenhuma, aquele escrete comandado por Telê Santana conquistou o mundo e isso vale muito mais do que um título de Copa do Mundo. A de 86 não teve tanto brilho, mas também vive no imaginário dos amantes do futebol arte. Aliás, foi o próprio Dr. Sócrates que fez minha visão de Copa do Mundo mudar quando me disse  “É muito mais importante um amor do que ser campeão do mundo”, o cara era realmente um filósofo não é mesmo?

Vou contar um pouco de como foi minha entrevista com ele. Passei o dia bem nervoso e agitado, afinal de contas estava apenas no meu 3º período de jornalismo e já ia entrevistar um dos grandes jogadores do futebol brasileiro. O meu amigo Humberto Frasson foi junto comigo na entrevista. Nós dois estávamos bem empolgados. O evento que estava acontecendo no Paço Municipal debatia que política e futebol se misturam. Nada mais justo do que contar com a presença de Sócrates.

Antes da entrevista comprei um livro do autor José Paulo Florenzano sobre a democracia corinthiana, afinal de contas queria um autógrafo do Sócrates nesta obra. Subimos as escadas do Paço Municipal rapidamente e nos deparamos com o curador do evento e o Dr. Sócrates. Havia um repórter do maior jornal do estado para fazer uma entrevista com o Dr também, mas nós ganhamos a prioridade de uma exclusiva primeiramente.

Fomos para uma sala reservada, a informalidade era o carro chefe da vida de Sócrates, nós não sentamos, ficamos de pé e realizamos a conversa ali mesmo. Como o Sócrates era alto, me senti um anão, ainda mais pela monstruosidade do Dr. com as palavras o que fazia ele parecer ser mais alto ainda. Assumo que logo na primeira pergunta eu já levei uma patada, a qual me assustou um pouco, tudo pelo fato de ter me dirigido a ele como “senhor”. Na hora fiquei com medo, mas depois tudo decorreu da melhor maneira possível, até que ele deu uma aula de amor para aos dois jovens estudantes de jornalismo.

Eu perguntei ao Sócrates sobre o pênalti perdido nas quartas de final da Copa de 1986 e a resposta que veio foi uma enorme aula. Eu o questionei: Aquele pênalti desperdiçado contra a França nas quartas de final da Copa de 1986 foi um dos piores momentos da sua carreira?

A resposta dele foi a mais sincera possível: “Nada disso!” exclamou ele me deixando mais nervoso ainda com a entrevista, já pensei “meu Deus o que eu estou fazendo” enquanto ele formulava o restante da frase. “Nada disso! O duro foi perder a mulher que eu amava”, aí ele deu uma gargalhada e tudo voltou ao normal. Ele ainda completou dizendo “Pênalti todo mundo perde, é questão de trabalho, isso não vale nada. Entenda o seguinte: é muito mais importante uma lágrima do que um saco de dinheiro, é muito mais importante um carinho, um abraço, do que um gol na Copa do Mundo. É muito mais importante um amor, do que ser campeão do mundo”.

Depois disso eu podia claramente desligar o gravador, pegar minhas coisas e ir embora para casa feliz. Teve mais perguntas, questionamentos. Mas nada mais importava. Já tinha valido a pena a entrevista só por essa resposta. Por vezes nos importamos demais com as coisas, mas cá entre nós o Dr. estava certo é muito mais importante uma lágrima do que um saco de dinheiro.

Isso só prova o quanto ele era diferenciado dentro e fora dos campos. O autógrafo dele no livro que conta a importância da democracia corinthiana está aqui, guardado na minha estante e vira e mexe o abro e admiro aquele autógrafo. A foto com ele ficou salva para a posteridade, a gravação do áudio assumo que não sei se ainda o tenho. Mas me recordo que aquele dia chuvoso de sexta-feira eu voltei para casa repetindo mil vezes as falas dele dentro do ônibus.

Aquela foi a minha primeira grande entrevista e não poderia ter sido com alguém melhor. Foram poucos minutos de exclusividade com o Dr. mas que com certeza eu e meu amigo Beto nunca mais esquecemos. O Sócrates marcou minha formação em jornalismo, olhando hoje teria outras mil perguntas para fazer ao Dr. talvez as que fiz naquele dia em 2010 tenham sido muito vazias, sem profundidade, ele pode até ter achado ridículas, mas era o melhor que poderia ter feito.

Foi incrível aquele dia e ainda perdura até hoje os ensinamentos que tive com ele. O entrevistado nos dá aula às vezes e isso vale mais do que um saco de dinheiro. Aliás, para fechar ainda com chave de ouro, teve outra fala do Dr. que cabe muito bem nos dias atuais, questionado sobre o Brasil ser um país democrático ele disse: “Ainda não. Hoje só temos direito a voto, precisamos ter uma democracia social e econômica também, e estamos muito distantes disso”. Cabe muito bem com nossa atualidade não é mesmo? Acho que vocês conseguem compreender o que eu quis dizer com ter tido uma aula com ele.

Confira abaixo a entrevista que eu e o Humberto Frasson fizemos com o Sócrates em 2010.

Como se sente tendo feito parte daquela seleção da copa de 1982?

R: Era um grupo fantástico, mas isso não tem muita importância não. O importante é o que você é, e não o que você faz ou participou.

O Dr. Vê alguma semelhança entre a seleção de 1982 e o movimento das diretas já?
R: Ambos uniram o povo brasileiro, só que na copa foi a arte, o futebol bonito que uniu o povo. Nas diretas já o povo se uniu em busca de seus direitos. A seleção era uma expressão artística que também faz parte da nossa cultura, já as diretas foi um movimento político, a única semelhança entre as duas é mostrar o quanto o povo brasileiro se une. Apesar de hoje em dia o brasileiro só se unir a cada quatro anos no mês da Copa.

Como fica o coração perto da Copa do Mundo?

R: Torcendo pelo Brasil. Mas como hoje eu penso em futebol, escrevo sobre futebol, não posso me dar ao luxo de ser fanático. Quem tem visão crítica não pode ter visão apaixonada, tem que ser torcedor uma vez ou outra, apesar de querer ver o Brasil campeão sempre.

Aquele pênalti desperdiçado nas quartas de final da copa de 86 contra a França, foi um dos piores momentos da sua carreira?

R: Nada disso! O duro foi perder a mulher que eu amava(risos). Pênalti todo mundo perde, é uma questão de trabalho, isso não vale nada. Entenda o seguinte, é muito mais importante uma lágrima do que um saco de dinheiro, é muito mais importante um carinho, um abraço, do que um gol na Copa do Mundo. É muito mais importante um amor, do que ser campeão do mundo.

A Democracia Corinthiana foi o maior movimento ideológico da história do futebol brasileiro, como esse fato afetou os jogadores do Clube a ponto de uma melhora dentro dos gramados? 

R: A Democracia corinthiana colocou uma postura educativa no clube, todos tinham o mesmo direito; do roupeiro ao jogador de maior salário, o valor dos votos era igual. Tínhamos uma postura igual a que todo o povo brasileiro queria, de igualdade. E outra, não mudou os jogadores, mudou os dirigentes, isso proporciona uma melhora tremenda dentro de campo, começamos a jogar livres, sem pressão, tínhamos poder de decisão, isso ajuda o jogador.

O Dr. Acha que hoje o Brasil já é por completo um país democrático?

R: Ainda não. Hoje só temos direito a voto, precisamos ter uma democracia social e econômica também, e estamos muito distante disso.

Hoje em dia tem algum jogador que te desperta o interesse de ver jogar?
R: Existe muitos jogadores bons, mas o Paulo Henrique Ganso é um jogador que se diferencia dos outros. É inteligente, enxerga bem os espaços no campo, é bonito de se ver jogar.

Hoje é difícil a torcida criar uma identidade com os jogadores, a culpa é do futebol comercial que existe?

R: Hoje o jogador fica muito pouco tempo no clube, não dá pra criar uma paixão, amor, se você fica um dia na casa de alguém, tem que ficar anos. Hoje ninguém para em lugar nenhum é uma rotatividade muito grande, não dá pra criar um sentimento de quem fica 10 ou 15 anos como os jogadores ficavam no passado. A forma de relação clube e jogador atualmente é diferente, e isso tem que ser respeitado.

Falta personalidade nos jogadores atualmente? Já que muitos são manipulados por seus empresários.

R: Não é falta de personalidade, é falta de educação. Tem é que dar educação pra esse povo, se não vai ficar por isso mesmo, vão ser manipulados pro resto da vida , e não só por empresários, mas por técnicos, dirigentes e até mesmo os filhos. Às vezes o filho de 3 anos é mais inteligente do que o cara de 30 que vai jogar no seu time, e isso ta claro, tem que educar esse povo, e não são só os jogadores, todos os brasileiros tem que ser educados. E a obrigação é do Estado.

O Dr jogou no Corinthians, Botafogo de ribeirão Preto , Fiorentina, Flamengo e Santos. Qual foi sua maior paixão no futebol?

R: O Botafogo foi o clube que comecei, é um carinho especial, é como sua primeira namorada. O Corinthians foi o clube me deu visibilidade, foi aonde cheguei na seleção, foi minha primeira esposa, aquela que deixa marcas profundas no coração. A Fiorentina foi o time que me acolheu na Europa. O Flamengo é o Flamengo, qual jogador não sonha poder vestir a camisa dos clubes com maiores torcidas do Brasil? Eu vesti as duas.

O Santos, era o time que torcia na infância, então teve um sentimento especial. Mas a minha marca é Corinthiana, não que os outros tenham sido piores. Eu me apaixonei por todos.

Como foi conciliar o futebol com o curso de medicina?

R: Foi difícil, mas dava mais importância a faculdade, o futebol foi um acidente de percurso na minha vida,um bom acidente por sinal. Só me dediquei mesmo ao futebol depois que concluí a faculdade, não que desprezava os treinamentos, mas sim a importância que eu dava foi maior.

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