Respeito, reconhecimento e uma carreira de longa duração para as mulheres no jornalismo esportivo

NATALIA CONCENTINO

O que antes era considerado um campo de difícil acesso para as mulheres agora abre espaço e tem cada vez mais representantes femininas atuando. Sim, estamos falando do jornalismo esportivo. Mas, apesar de serem vistas com muito mais frequência cobrindo esportes, as mulheres ainda têm alguns desafios pela frente a fim de se consolidarem e construir longas carreiras nessa editoria.

Para entender um pouco mais sobre o que acontece nos bastidores do jornalismo esportivo, conversamos com duas repórteres com experiência no assunto. Fernanda Oliveira e Lara Mota são de gerações diferentes e têm no currículo a cobertura de grandes eventos.

Um ponto importante e que as duas citam é que está mais fácil da mulher conseguir seu lugar no jornalismo esportivo. “Na minha visão, no mundo de hoje está muito mais fácil de conseguirmos nosso espaço, acredito que pela aceitação de ambas as partes na questão profissional”, comenta Fernanda. Lara que tem uma carreira mais longa e pertence a uma geração anterior a de Fernanda conta sobre quando se mudou de Curitiba para São Paulo e teve suas primeiras experiências na área, “quando eu comecei a cobrir esporte em São Paulo houve um tempo em que eu era a única mulher na TV aberta, não fui a precursora, mas naquele momento ainda era raro ver mulher na cobertura esportiva diária. Hoje não, você chega nos treinamentos e tem repórteres mulheres de site, TV e rádio, e também tem aquelas com funções diferentes, como comentaristas e narradoras”.

Em relação ao trabalho hoje em dia, tanto Lara quanto Fernanda, dizem que tem um bom relacionamento com os colegas e também com os atletas, que respeitam e não diferem o tratamento. “Por parte dos atletas melhorou muito o relacionamento, é muito difícil ter episódios em que faltam com o respeito, já quando eu comecei ainda tinham alguns que gracejavam, assim como uns treinadores que queriam cortejar, de certa forma, mas hoje o entendimento é diferente, somos todos profissionais trabalhando”, relembra Lara Mota.

Embora tenha acontecido uma mudança positiva nesse cenário ao longo dos anos, ainda existem pontos citados pelas entrevistadas que merecem uma atenção e são desafios para as mulheres que querem trabalhar na cobertura de esportes.

Fernanda Oliveira fala sobre os torcedores que vão aos estádios ou demais locais de competição, “o desafio é sempre maior, principalmente quando são entradas ao vivo e gravações no meio de torcidas, porque acabamos encontrando torcedores das mais diversas formas e alguns muito sem noção. Tivemos vários casos bizarros com jornalistas neste tipo de cobertura e sentimos por elas, porque, de certa forma, poderia ser qualquer uma de nós no lugar delas e isso dói. Os torcedores tem que ter mais senso e nos respeitar mais”.

Fernanda Oliveira Rio 2016
Fernanda Oliveira durante a cobertura das Olimpíadas Rio-2016. Foto: Arquivo Pessoal.

Já Lara ressalta mais dois pontos que ainda incomodam no jornalismo esportivo. “Espaço tem para as mulheres, há um entendimento de que as equipes devem ser mais mescladas, porém isso ainda é diferente de ter reconhecimento”. O segundo ponto a ser destacado é sobre a duração da carreira como jornalista esportiva, “outra coisa que eu acho importante a gente falar é que, eu por exemplo, vou fazer 40 anos em 2019 e trabalho há 18 com isso, mas você não encontra repórteres mulheres com mais idade nessa editoria, é diferente de política ou cotidiano, existe um preconceito e uma ideia de que o esporte está atrelado à imagem da menina mais nova, mais bonita, enquanto muitos homens, apesar de terem envelhecido, ainda tem seu espaço para cobrir esportes. São raras as exceções em que a mulher envelhece e segue no esporte, a maioria é ‘descartada’ quando chega em uma certa idade, o que não deveria acontecer, pois essa pessoa já tem uma credibilidade, contatos e experiência, o que deveria fazer diferença”, completa.

 

Lara Mota já foi repórter da Rede Globo, Cultura, Record e Fox Sports.

Fernanda Oliveira é repórter do site Portal Esporte Net e atua como assessora de imprensa na área esportiva.

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